terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Primavera,Verão,Outono,Inverno e..Primavera (,Kim Ki-Duk;2003)


Indicação e apresentação do filme: Silvana Massiotti
Textos: Reinaldo Silva e Joaquim Ferreira

         O Eterno Retorno do Mesmo:  Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera ...

No meu entender a idéia central do filme está baseada na hipótese de um Eterno Retorno do Mesmo. O próprio título sugere-me esta hipótese, uma vez que a Primavera retorna após o Inverno, dando a entender que tudo que assistimos anteriormente irá se repetir. Talvez quem assistiu ao filme não tenha atentado para isso. Não se trata apenas das quatro estações. Não é um tempo que acaba ao termino das estações do ano. É um tempo infinito que se repete. Se o diretor quisesse expressar os acontecimentos de cada estação terminaria o filme na estação Inverno e não repetiria os mesmos fatos que ocorreram na Primavera.
Outro fato que chamou minha atenção é a constância da presença da cobra em inúmeras cenas e em locais diferentes. A cobra, devido a flexibilidade do seu corpo pode alcançar com extrema facilidade a extremidade oposta de seu corpo (a ponta do rabo), formando um círculo fechado. Desconheço a simbologia deste animal nas religiões asiáticas.
O local do Eterno Retorno do Mesmo
Incrustado no centro de uma enseada isolada com abertura para o mar existe um pequeno templo budista. O cenário é deslumbrante. O templo flutua. Cada plano fotográfico é fixo, quadros exuberantes da natureza. A câmara se movimenta apenas para registrar quadro a quadro. Talvez cada cena tenha sido pensada e testada antes de vir a se tornar o que vemos, porque os ângulos escolhidos são lindíssimos.
Neste cenário convivem dois personagens. O mestre e uma criança, que transparece ser o seu discípulo.
Uma hipótese cosmológica do Eterno Retorno do Mesmo
Existem interpretações discordantes sobre o Eterno Retorno, e até quem considere essa hipótese totalmente absurda. Alguns consideram que só existe o Eterno Retorno do Diferente. Outros interpretam como uma crença popular ou religiosa. Aqui não interessa esse debate. Desejo apenas fazer uma interpretação particular do filme.
As religiões antigas da Ásia dão a entender que o Eterno Retorno é uma “doutrina que consiste em crer que a história do mundo é um desenrolar eterno de fases cíclicas” (1) que se repetem com uma exatidão absoluta. Neste sentido “o cosmo será um sistema bem ordenado” (2), em que cada elemento do universo interfere uns sobre os outros. Todos afetam e são afetados pelas ocorrências do mundo.
E neste cosmo, compondo com todos os demais fenômenos existe o ser humano. Mas uma diferença radical diferencia a espécie humana. As espécies animais vivem em função de seus instintos, enquanto os humanos, além dos instintos, existem também os desejos. Os instintos são necessidades que cessam após sua satisfação: sente-se fome vai a caça de alimento e obtém-se satisfação. Sente-se sede, sacia-se a sede e obtém-se satisfação.
O que ocorre com o ser humano não se limita aos instintos básicos de sobrevivência física de si mesmo e da sua espécie.
O ser humano possui desejos. As manifestações dos desejos são múltiplas e insaciáveis. Inevitável. Mas o que faz com que o desejo seja assim?
Uma vontade de apropriação, de dominação e de expansão de suas forças em relação aos seus interesses ou movidos pelos interesses de outros humanos. 
  Primavera. A Moral e a Ética para formação de um indivíduo
É o período em que a crueldade se faz presente. Do prazer do desejo obtido em submeter outros seres aos interesses perversos. É este sentimento que o mestre, surpreso, aprenderá com a criança. Antes do final do filme iremos descobrir como essa criança chegou ao templo.
O mestre não interfere nas ações da criança. Ele fará com que ela aprenda que suas ações interferem na existência dos os outros seres. Utilizará o mesmo método que a criança usou para satisfazer sua crueldade com o peixe, o sapo e a cobra. O mestre tem em vista dois objetivos:
A Moral: ensinar a criança um comportamento de convivência com os outros seres;
A Ética: formação do caráter da criança a partir de um comportamento moral.
 Verão. Um poderoso afeto
É quando o desejo sexual aflora. Assistimos várias cenas em que a criança já adolescente luta contra esse desejo: reza, move o barco de um lado para o outro. Para ser mais claro: o discípulo sobe pelas paredes.
Mais uma vez o mestre não interfere. Parece que o diretor introduz uma jovem no templo para que possamos obter um impacto direto em relação ao desejo sexual, com jogos de sedução, cobiça e perda do objeto amado.
O mestre diz ao discípulo diante a sua perda: “os desejos despertam a posse, a posse desperta o ódio, que desperta o crime”.
O que o mestre tenta ensinar ao discípulo, é o controle de seu desejo sexual. A superação deste desejo funda-se em uma disciplina milenar, que ficou conhecida como estoicismo. Popularmente, estóica significa a pessoa disciplinada, que evita certas condições que são consideradas prazerosas por muitas pessoas.
OutonoA perda insuportável
Essa é a estação escolhida para o aparecimento da vingança, do ódio, do ressentimento, da busca do aniquilamento de si como solução. Mas também o período de assumir as consequência dos atos praticados, tal como o mestre o ensinou quando criança.
O mestre faz uma pergunta ao discípulo, que cometeu um crime: “você foi feliz convivendo com os homens?”.
É importante assinalar que outros dois personagens irão até o templo. E nós espectadores, saberemos que o mestre possui capacidades que são resultados de uma longa disciplina da mente.
Inverno. O cuidado de si e o enigma
É a estação em que o mestre quando jovem chega ao templo, encontrando ali sinais de um mestre anterior. Tem início o Eterno Retorno do Mesmo. Isto é, ele sabe que é meio e não fim de um novo ciclo que virá, sua existência é uma preparação para a morte e renovação. Seus exercícios disciplinam o corpo e a mente, uma preparação para um grande desafio.
Nesta estação tomaremos conhecimento do enigma que cerca a chegada da criança ao templo, e em que condições ela foi deixada aos cuidados do mestre.
No meu entender o nascimento da criança é o resultado de algo indesejado ou de um arrependido, que causa vergonha e culpa. É na tentativa de se livrar desses sentimentos que a criança será deixada no templo.
   Primavera. O retorno do mesmo
Tudo que aconteceu desde o início retorna. Desnecessário mostrar o que ocorreu repetindo todas as cenas. Na tela apenas as cenas da manifestação da crueldade na criança.
O Eterno Retorno do Mesmo se fez presente para os espectadores.
Abraços - Reinaldo
 Citações 1 e 2: Vocabulário Técnico de Filosofia.

Reinaldo Silva
..........................................................................................................
        A importância  social da imagem e da religião

A introdução do som no cinema  encontrou certa animosidade e resistência, e um dos nomes mais destacados dessa  resistência  foi o de Charles Chaplin.Quando da irrupção do som no cinema,  ele reclamava  da  perda do  encantamento da imagem na medida em que o som foi introduzido . Na realidade , a dimensão do  som que Chaplin reclamava era o excesso de diálogos , falas e mais falas , que ofuscavam o que é seminal na arte cinematográfica: a imagem.  A introdução da fala, deveria ter  o cuidado de   não competir com a imagem. Para Chaplin ,como compositor que era, a trilha sonora deveria ser sincrônica e suave sem esconder o  significado e encantamento da imagem e sim contribuir para reforçar seu significado.O diretor do filme "  Primavera ,Verão, Outono , Inverno...Primavera", o sul -coreano    Kim Ki-Duk  é uma interessante exemplo sobre  a importância da imagem .Conhecido como o " cineasta do silencio" , Kim  é econômico nos diálogos e suas narrativas  privilegiam  a fotografia  e a imagem ou seja, privilegiam  o cinema.  O ranger das portas, o farfalhar de vento, de água corrente,de folhas, os sons rápidos identificando as imagens  que pontuam o filme e , em especial, as mudanças de estação, alertam e dizem muito  sobre a necessidade do cinema de equilibrar  imagem e som.Em épocas digitais e de grande disponibilidade de recursos tecnológicos, diretores exageram  e distorcem as imagens. Trilhas sonoras que abafam falas, falas que  escondem imagens  e imagens  absolutilizadas  como êxitos de fotógrafos e de  diretores com muita formação técnica mas com pouca sensibilidade social   e conhecimento empírico. Curiosamente,  Kim não tem formação técnica em cinema. Começou a filmar um pouco tarde para os padrões correntes e,talvez por isso, filma como observador  com uma narrativa muito pessoal e histórica , sem estar  preso nos cânones da light magic.  O aspecto imagético desenvolvido pelo diretor  Kim Ki-Duk  , com seu equilíbrio de ângulos e enquadramentos, desenvolve o  equilíbrio do funcionamento e  a integração do homem com a natureza  e desta com a  sociedade .
Assim , a integração do homem com a natureza  é desprovida de um ecologismo vazio e  de contemplação . Kim Ki-Duk critica o homem predador do ambiente ,  posições que são produtos da sociedade. A partir de sua experiência de vida e de  seu  conhecimento empírico, faz  referencias no filme ao crime, a violência e ao castigo, enfim a um moralidade construída socialmente e que coloca  a  a religião , no caso o budismo, em seu  devido lugar, ou seja, interrelacionada com o funcionamento social.Segundo a religião budista , a vida se caracteriza em transições, com o sentido infinito e grande conformismo   que são reinterpretados  nas sociedades  ocidentais , naturalizados a partir da crença de que tudo se resolve naturalmente sem conexão  com a realidade social.   No  final do filme , as lentes de Kim Ki-Duk  mostram um ciclo completo semelhante ao  início do filme mas incorporado  com o aprendizado social que rompe o conformismo  religioso.

Joaquim Ferreira


                       




Nenhum comentário:

Postar um comentário